Posts filed under: ‘Textos Amigos‘




Saudade dos craques que não vi jogar

Por Carlos Mesquita

Que saudade de épocas que não vivi, mas das quais muito já ouvi falar e que, em mim, despertam a mais profunda curiosidade. O genial Canhoteiro, homem inexistente em tempos nos quais brilham imperadores do vigor físico, driblava de forma única. Muitos de seus lances, comentam, davam a impressão de que ele atravessava o corpo dos marcadores. Eram jogadas quase sobrenaturais. Afora artistas, os futebolistas pareciam, em última instância, malabaristas dotados de um poder especial que os alçava a um patamar que pobres mortais nunca alcançariam. A longos metros de distância e às vezes com as vistas embaralhadas pela presença adversária, achavam e lançavam um companheiro em posição privilegiada. Gérson, O Canhotinha de Ouro, foi um desses mestres. Segundo muita gente, usava as mãos em vez dos pés.

Passadas várias décadas, a despeito dos avanços que a medicina esportiva proporcionou aos hoje atletas de alto rendimento, raros são aqueles que cultivaram a tal da visão periférica. Desenvolveram a massa muscular em detrimento da massa encefálica. E é por esse motivo que sujeitos limitados, daqueles que tocam a bola de lado, achando o parceiro de equipe a míseros centímetros, são tratados como craques; segundo o ditado, em terra de cego, quem tem um olho é rei. Dizem que servem para cadenciar a partida. Pelo que já escutei, entretanto, quem fazia isso de verdade, quando não desequilibrava com seus dribles desconcertantes, obviamente, era Garrincha, ponta-direita que nasceu no pequeno município fluminense de Pau Grande e que brilhou nos maiores estádios de que se tem notícia. Fora dos gramados, era um bon vivant, sim. Adorava rosetar. Tanto que deixou filho até nos países nórdicos (Ulf Lindberg, que deve estar beirando os 50), fruto de uma noite de amor com uma camareira, no ano de 1959, quando foi jogar na Suécia com o Botafogo.

Das legítimas lendas do futebol tupiniquim, produto de exportação mais genuíno na história brasileira, os jogadores de nossos tempos herdaram os vícios e a falta de juízo para as finanças. Parafraseando a garotada, gostam das noites de baladas, em que bebidas e mulheres mal-intencionadas vêm fácil e, quando partem, levam suas conquistas. Não conseguem repetir, todavia, as façanhas a que os amantes de cabelo branco do esporte tiveram o privilégio de assistir do alto das arquibancadas.

É claro que muitas paixões esbarraram nas traves da frustração desde que Charles William Miller voltou da Europa, com uma idéia na cabeça e uma bola embaixo do braço, entre o fim do século 19 e o começo do seguinte. A fim de sintetizar a história, poder-se-ia afirmar que, em parte por causa do sabor amargo das derrotas, o amor virou um vírus, que transmitiu uma doença perigosa. E esta, propagada entre radicais nefastos que se denominam torcedores, pode ser letal.

De qualquer maneira, o teor passional e saudável da época em que o “Negão da Vila Belmiro” desfilava habilidade jamais vista e reproduzida tornou-se escasso. A cada temporada, foi perdendo terreno. E tudo porque o garoto pobre da periferia que iniciava nos campos de várzea, da forma mais pura, despretensiosa e espontânea que havia, foi assassinado e o corpo dele, escondido embaixo do gramado sintético que forra os campos de soçaite.

Como esporte de massa despido de ideologias, o futebol não discrimina ninguém. Assim, a camada mais remediada, aquela que tem divisas para bancar escolinhas de craques aposentados para os pequenos filhos burgueses que demonstram alguma ou nenhuma intimidade com a pelota, passou a apostar fichas nesse negócio lucrativo. Embora tortuoso, é o atalho mais cobiçado para acumular fortunas.

Com isso, o principal combustível ficou pelo caminho. O espaço que o dom nato cavava foi ocupado, quase por completo, por interesses mercantilistas. Em seu lugar, restou apenas um rastro de afinidade que tem de ser seguido e, acima de tudo, nutrido religiosamente em centros de treinamento. Para que não seja perdido e não dê prejuízos a empresários. A ele, somou-se a famosa e badalada medicina interdisciplinar. Teoricamente, ela auxiliaria um potencial qualquer a se transformar em uma supermáquina moderna, dessas que vão de 0 a 100 em milésimos de segundo. Sem derrapar. Com esse esboço, uma simples partida teria tudo para recuperar, em princípio, o status de espetáculo que já ostentou. O que se vê nos campos, entretanto, é oriundo dos tempos da pedra lascada. Com um mínimo de inteligência e classe, homens das cavernas, envergando uniformes de agremiações tradicionais, disputam lances cheios de truculência. Argumentam, ainda, que futebol é coisa de macho, de “cabras” grandes, fortes e ferozes que, curiosamente, caem no gramado como crianças desamparadas e morrem do coração como pessoas que já cumpriram todas as suas obrigações. Talvez porque o corpo seja pouco para suportar as exigências do mercado atual.

Em marcha acelerada, o futebol-arte veio sumindo nas últimas décadas em nome do estilo operário, solidário, no qual o meia, o atacante, os alas e o centroavante (se é que isso existe) voltam para marcar os oponentes. A pedido do “professor”. Sempre. Para a falta de capacidade dos comandados, os treinadores acharam uma bela saída. Aos apreciadores, no entanto, ela soa como desculpa.

Não importa se escalam o time no 3-5-2, no 4-4-2 ou no 4-3-3. Querem sempre compactar o plantel. Todo mundo perto, afinal, dispensa uma visão mais ampla e não deixa espaços ao adversário. Na esteira desses benefícios, vem ainda uma porção de outros. É mais fácil marcar o adversário, tomar a bola, localizar o parceiro, tocar com rapidez, chegar ao ataque e fazer gol. Ufa! Os jogadores especializados em passes longos, assim, entraram em extinção e a tendência é de que surjam, cada vez mais, cabeças-de-bagre. E, conseqüentemente, que mais bolas sejam chutadas para o mato, mesmo que não decidam jogos de campeonato.

Ecoando pela chamada crônica esportiva, estão os reflexos dos campos. Se antes havia belos textos de Nelson Rodrigues e de um Armando Nogueira inspirado, as análises atuais não têm brilho nem poesia. Porque estão carregadas de estatísticas e julgamentos parciais, limitando um dos esportes mais queridos da Humanidade a raciocínios matemáticos, financeiros e distorcidos. A beleza do futebol, entremeada de carga afetiva, foi efetivamente posta de escanteio, que algum perna-de-pau bateu fazendo aquela curva por trás da meta do arqueiro.

Da era de Arthur Friedenreich (o Pelé do amadorismo) até aqui, o futebol tornou-se um negócio sério demais, apreciado por muitos engravatados que lhe roubaram a essência. Não que não tenha de ser tratado com valor, importância e decência, sobretudo no que tange a organização e o respeito aos freqüentadores de estádios. Precisa, contudo, resgatar primeiro o caráter de diversão e espetáculo, com “artistas” comprometidos, leais e talentosos, capazes de entreter homens e mulheres de todas as idades com o romantismo de outrora. Sem, entretanto, a violência arrebatadora que esvaziou os templos do futebol. É o esporte do povo. E não o ópio. Por isso mesmo, faz-se necessário recuperar sua dignidade e seu magnetismo, misturando, quem sabe, as paixões passadas aos números e às ciências atuais. Numa proporção balanceada.

Que saudade do atrevimento de Canhoteiro, da bicicleta de Leônidas, do refinamento de Zizinho, dos passes longos e precisos de Gérson, dos dribles de Garrincha e dos chutes potentes de Rivellino, ídolos que não vi jogar, mas que, de tanto ouvir falar, sinto como se os tivesse acompanhado desde o pontapé inicial de suas carreiras!

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Add a comment 25 de fevereiro de 2008

Páginas

Categorias

Links

Meta

Agenda

novembro 2017
D S T Q Q S S
« dez    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

Posts by Month

Posts by Category