Carta que não mandarei

9 de maio de 2008
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Escrita na terça-feira:

Talvez não devesse ter escrito / dito o que escrevi / disse. Deveria permanecer calada, apoiar silenciosamente ou fingir que não me importou o que aconteceu. Seriam mentiras, mas incomodariam menos.

Claro que não o fiz. Não sei manter minha língua dentro da boca, preciso falar e deixar as coisas ainda piores. É minha virtude e também meu maior defeito. Falo o que penso, tento ser sincera com as pessoas que me cercam. Acabo por magoá-las e por afastá-las.

Fato é que, inegavelmente, você mudou comigo. Hoje, enquanto você buscava me ignorar durante a manhã e enquanto saía da cozinha correndo para não ter que olhar para minha cara, minha tristeza aumentava. E, ao tentar visualizar o momento em que esse processo começou, percebi que foi muito antes de qualquer e-mail ou conversa mais ríspida que tenha havido.

É difícil acreditar que há alguns meses, bebíamos cerveja juntos, conversávamos sobre a vida e passávamos horas em lições de música. Penso na pilha de CDs que tenho em casa, que ficam ao lado do meu player e não consigo reconhecer a pessoa que os deixava para mim. Parece que foi em um passado tão, mas tão longínquo que nem existiu de verdade.

Admito que falei demais, que não medi as conseqüências do que escrevi. Foi um erro. Entretanto, não consigo crer que você imagine que o que fiz foi para atingi-lo de alguma forma, para fazer mal. Não quero acreditar que essa frieza toda é porque você achou que tentei te sacanear de alguma maneira. Porque se for assim, esquece. Não temos saída, você não conseguiu me conhecer em meses, não vai ser agora que vai acontecer. Estaria colocando meu caráter em dúvida e, assim sendo, lamento, mas não tem volta.

O que me dói é esse vazio, essa falta de respostas. Que eu errei, admito. Aceito que você tenha ficado magoado e decidido se afastar. Só não entendo por que, ao invés de jogar limpo, falar a verdade, dizer que não gostou, preferiu virar a cara para mim, como se eu não merecesse um mínimo de consideração. Como se eu fosse uma imbecil qualquer que tolerou enquanto não trouxe incômodo.

Será que é isso? É, pelos últimos acontecimentos, talvez eu já tivesse o porquê de todo esse estranhamento e não quisesse admitir. E, se assim for, é minha vez de questionar. Por que brincar com os sentimentos alheios, por que fingir algo que não sentia? Para manipular mais fácil? Pode ficar tranqüilo, não vou deixar de fazer as coisas para as quais sou paga por não sermos mais próximos. Não preciso achar que sou amiga de alguém para cumprir minhas obrigações. Aliás, prefiro não ser amiga de alguém que age dessa maneira.

Não, eu não acho mesmo que você seja assim. Não consigo e nem quero acreditar, juro. Seria jogar boa parte de minhas boas lembranças do último ano na privada e dar descarga. Dentro do meu coração – e dane-se se isso é piegas – seu arquétipo está tão longe do que vejo hoje que parecem ser duas pessoas diferentes. Eu penso em você e me vem alguém querido, com quem eu podia passar dias conversando e ainda ter assunto. Alguém que me ensinava com paciência sobre assuntos que eu pensava nem gostar e que se tornaram fascinantes. Que me contava histórias ótimas e me fazia sentir incluída, mesmo que como espectadora.

Diz então o que eu fiz para deixar de merecer tudo isso. Briga de uma vez comigo, xinga, solta a boca, mas não me ignore como se não valesse nada, como se jamais tivesse estado próximo. Você é importante demais para mim para que jogue tudo o que sinto fora como se não tivesse existido.

Não ligo de perder o emprego, não sofro por ter que vir para cá todo dia. Só me é insuportável ter que conviver com o nada vindo de alguém que eu amo.”

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