Pena que perdi o timing…

15 15UTC Abril 15UTC 2008

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Recebi o seguinte texto hoje:

Garotos de recado


Você conhece o tipo. É aquele que nunca diz diretamente o que sente por você. Os olhos dele transmitem desejo, os braços a seguram com firmeza, mas verbo, que é bom, não rola. Será que ele nunca vai se abrir, nunca vai falar? Menina, ele deixa um monte de pistas, você que não se dá conta.

Tem gente que, por não ter nascido com o dom da oratória e muito menos com vocação pra poeta, pede palavras emprestadas para dizer o que sente. Emprestadas de onde? Das músicas que gosta. Dos livros que dá de presente. Dos filmes que vive comentando. Está tudo ali, você que não presta atenção.

O que ele sente está na página 27 do livro do Borges que ele fez questão que você lesse. Aquele trecho de uma carta do Caio Fernando Abreu, que está sublinhado à caneta, não narra justamente o que vocês viveram no final de semana passado? E adivinhe por que o cara fez questão de levar você para ver aquele filme francês que ele já viu sozinho duas vezes. Adivinhe. Ele está inteiro naquela cena do casal dentro do metrô. É tudo o que ele gostaria de falar pra você, mas diz assim, através de terceiros.

O e-mail dele vem cheio de citações, ele vive cantarolando sempre a mesma música, até a camiseta que ele veste tem uma frase em inglês que você tem preguiça de traduzir. Traduza. Ele está falando com você.

Ele não diz nada de autoria própria, teme ficar solene, apavora-se diante das exigências verbais que lhe cobram. Prefere, disparado, as metáforas. É plagiador confesso. Preste atenção na letra, no refrão, na música que ele colocou pra tocar, ele está mandando um recado. Os cineastas, os poetas, os malucos, todos os homens apaixonados do planeta falam por ele, e você não escuta.

Ele quer que você leia os olhos, as mãos, os lábios. Ele não vai optar pelo chavão, pela trivialidade daquele “eu te amo” que você aguarda com impaciência. O idioma dele é outro. Ele silencia para que falem por ele. Atenção para aquele momento em que ele aumentou o som, interesse-se pelo trecho de Proust que ele sempre relê em voz alta, tente captar os versos que ele sabe de cor mas que não são de autoria dele – mas ao mesmo tempo são. Antene-se nos recados, em todas as palavras em que você tropeça e que foram largadas por ele bem no seu caminho, bem por onde você passa. Há mil maneiras de se fazer uma declaração.

Marta Medeiros”
Antigamente, ele tinha mania de me dar CDs. Nunca imaginei nada, por mais que minha intuição dissesse que era sim. Agora não acontece mais. Pago por minha lerdeza.

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